Marcas de Gratidão

Marcas de Gratidão

Em 2015, eu recebi um diagnóstico de câncer. Naquele verão, passei por uma série de radioterapias e quimioterapias. Perto do final desse processo, eu estava extremamente enfraquecido e muitas vezes desanimado. Durante um dos meus tratamentos diários, meu oncologista de radiação reconheceu meu estado deprimido e me pediu para contar a ele sobre um dos meus sonhos que ainda não havia sido realizado. Eu argumentei que eu não estava realmente pensando sobre esse tipo de coisa. Ele respondeu que ele precisava ouvir sobre um desses sonhos antes de eu poder ir embora naquele dia. Eu aceitei e compartilhei que a minha esposa e eu queríamos fazer o Camino de Santiago na Espanha, uma rota de peregrinação cristã para a Catedral Santiago de Compostela do nono século. Ele exclamou com muita empolgação: “Beleza! Nós vamos fazer você chegar lá!” Eu sorri e balancei a cabeça educadamente, mas honestamente eu nem pensei mais sobre isso quando saí de seu consultório.

Em dezembro daquele ano, eu estava entrando novamente naquele hospital para receber os resultados de um petscan que iria dizer se o câncer havia desaparecido. O mesmo médico alegremente compartilhou que eu estava livre do câncer. Louvado seja o Senhor! Quando a minha esposa e eu saímos do consultório, eu fui lembrado da conversa sobre caminhar na Espanha. Eu olhei para a minha esposa e disse: “Temos que fazer essa peregrinação de gratidão e ações de graças pelo que o Senhor realizou no meio disso! Ela disse uma palavra: “Claro!” Seis meses depois, estávamos nos Pirineus franceses, iniciando nossa caminhada de mais de 500 milhas pelo norte da Espanha até Santiago, onde a tradição diz que os restos mortais de São Tiago, o apóstolo, estão enterrados na catedral.  

Por mais de um mês, os nossos dias consistiram de caminhar, comer, dormir e desfrutar da amizade de nossos companheiros peregrinos no decorrer do caminho. Compartilhamos as alegrias e angústias para continuarmos a caminhada juntos. A força de nossas alegrias e solidariedade coletivas nos ajudaram a encontrar nossa própria força para continuar em direção a Santiago. Quando nossos dias se tornaram em semanas, percebemos que havia pessoas na nossa família do Camino que andavam num paço semelhante ao nosso. Então, a cada poucos dias, nós víamos uns aos outros e nos reconectávamos celebrando que nossos caminhos haviam se encontrado novamente. Nós comíamos juntos, andávamos juntos por um tempo, encontrávamos uma pousada ou uma igreja que oferecesse um lugar para dormir aquela noite—tudo enquanto vivíamos na alegria simples de termos nos encontrado e partilhado de um tempo uns com os outros, mais uma vez. De lá, nós falávamos intencionalmente os nossos “adeus” muito bem, sabendo que poderia ser o último momento que estaríamos juntos. A celebração começaria novamente ao nos conectarmos na trilha. Esse foi o nosso rico ciclo de comunidade em nosso tempo no Camino.

Dois dias antes de alcançarmos o nosso destino na Catedral em Santiago, a minha esposa e eu concordamos que sairíamos às 3 horas da manhã e tentaríamos caminhar 25 milhas. Isso nos levaria até a entrada de Santiago naquela noite. Com chuva prevista para o dia seguinte, pensamos que seria bom ter uma pequena caminhada para entrar em Santiago, especialmente se tivéssemos que fazer isso na chuva. Começamos cedo e chegamos num pequeno vilarejo por volta das 8 da manhã e encontramos um lugar de café para tomarmos um pequeno café da manhã. Ao chegarmos na porta, um dos membros da família do Camino, da Dinamarca, nos saudou na entrada. Não a tínhamos visto por mais de uma semana, então foi uma surpresa especial. Ao nos abraçarmos, ela compartilhou conosco que um de nossa família do Camino, Gabriel, um jovem da Itália, estava lá dentro. Ela disse que era o último dia dele antes dele voltar para casa e que ele não conseguiria voltar para Santiago. Nós fomos saudá-lo e dizer adeus. Ao sairmos do café, percebemos que seria verdadeiramente a última vez que estaríamos com ele. Naquele momento, os nossos planos mudaram. Acabamos conversando e tomando café por mais de duas horas. Nenhum de nós queria ir embora. Ao sentarmos ali, muitos de nossa família do Camino entraram e se juntaram a nós. Foi uma linda celebração do Gabriel naquela manhã.

Num dado momento, eu me inclinei e compartilhei com o Gabriel que eu lamentava que ele não ia conseguir chegar em Santiago. Tínhamos andado tanto e estávamos tão perto de nosso destino. Ele me olhou como se não estivesse entendendo. Eu repeti, pensando que poderia ser uma barreira do idioma. Mas ele me olhou gentilmente e disse: “Não, meu amigo. Meu objetivo não era Santiago. Sempre foi estar aqui com vocês”. Deu um nó na minha garganta quando percebi, naquele momento, o verdadeiro significado de nossa jornada. Não era simplesmente o destino de Santiago. Era o presente precioso da nossa família do Camino e a comunhão pelo caminho. Era essa comunidade e não as milhas, que fizeram da nossa jornada tão rica e completa.

Ao mesmo tempo que nossos planos e alvos são vitais e essenciais, eu fui humildemente lembrado da benção preciosa que é a comunidade que nos rodeia na busca da vida. À medida que nos concentramos em nosso objetivo final para o céu, sou profundamente grato por aqueles que nosso Senhor colocou para caminhar ao meu lado e ir à minha frente em minha jornada. Levo adiante a grande alegria e bênção pelo meu tempo com aqueles que já foram na frente. Amo e aprecio aqueles que continuam a caminhar ao meu lado no trabalho e no descanso, nas provações e triunfos, nas tristezas e nas celebrações. Acho que suas pegadas e marcas de influência continuam a me guiar e fortalecer em meu próprio caminho. Sou sinceramente grato a cada um por me deixar participar de sua jornada. Obrigado.

Cort Miller é director de Comunicações Globais e Desenvolvimento de Mordomia no Centro Global de Ministério.

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