Pelágio, Agostinho e Armínio

Pelágio, Agostinho e Armínio

A Igreja Reformada dos Países Baixos (Reformed Church of the Netherlands - RCN) tem sido a denominação oficial das Repúblicas das Províncias Unidas dos Países Baixos desde 1571. Na ocasião do Sínodo de Endem, eles estabeleceram a Confissão Belga e o Catecismo de Heidelberg (para as províncias de língua holandesa) ou o Catecismo de Genebra (para as províncias de língua francesa) como os documentos confessionais e exigências indispensáveis para a ordenação de seus ministros. Depois do Ato de Abjuração em 1581, as igrejas católicas foram purificadas ao remover imagens e símbolos que na época foram confiscados como propriedade da RCN. Outros grupos protestantes não calvinistas eram tolerados, mas com condições austeras e limitações em sua liberdade de culto e religiosa. Já que a RCN é uma denominação protestante e, acima de tudo, calvinista, o motivo da “justificação pela graça através da fé” era vital. Por essa razão, qualquer proximidade com a aparência de obras de justiça era vista negativamente e acusada de aderir a heresia do pelagianismo.

Tiago Armínio (1560-1609) foi pastor da Igreja Reformada na Holanda (entre 1588 e 1603) e professor de teologia da Universidade de Leiden (entre 1603 e 1609). Ele viveu no auge da Guerra dos Oitenta Anos (1568-1648), perdendo sua mãe e irmãos no massacre de Oudewater de 1575. Entre as tragédias da vida, uma abundância da graça de Deus iluminou sua juventude para que não fosse abandonado. Um católico, Theodore Emilio (? - 1574), cuidou de sua educação básica e deu oportunidades para Armínio descobrir seu chamado. Foi no ambiente desta universidade que o jovem acadêmico percebeu sua capacidade intelectual. Com o apoio das classis de Amsterdam (corpo governante da igreja), ele prosseguiu seus estudos acadêmicos na condição que ele devolvesse sua bolsa com o serviço pastoral. Sua ordenação aconteceu em 1588.

Até esse momento em sua vida, muitos desafios haviam sido superados, mas muitos outros ainda viriam. Os desafios a seguir aconteceram em torno do tripé doutrinário dos seres humanos, do pecado e da salvação. Baseado em suas perspectivas em antropologia, hamartiologia e soteriologia, Armínio foi acusado de ser pelagiano ou semi-pelagiano. Entretanto, isso é um erro—a articulação de Armínio sobre salvação humana claramente não era pelagiana.[1]

Pelágio (350-423) foi um monge britânico que negou o “Pecado Original”, crendo que a natureza humana era neutra e que as pessoas aprendiam a pecar através da socialização. A única ação da graça de Deus para Pelágio era a comunicação de Sua lei aos corações das pessoas, um tipo de revelação comum natural e geral para todas as pessoas da raça humana. Já que a humanidade era consciente desses princípios, então estaria à cargo dos indivíduos seguir cada mandamento. Pelágio ensinou que cada ser humano era completamente responsável por sua própria salvação, sem qualquer intervenção externa ou operação da graça. A teologia pelagiana, portanto, ensinava que a imagem de Deus na humanidade não havia sido perdida nem corrompida, mas estava intacta, porque o pecado de Adão havia afetado somente a ele e não a sua posteridade. Além disso, ele ensinava que o livre arbítrio também estava intacto e era esse agente que ao mesmo tempo culpa e empodera seres humanos a serem salvos e viverem em absoluta perfeição.[2]

É claro que a posição de Pelágio não é baseada nas Escrituras nem na experiência. Por essa razão, Agostinho (354-430) empreendeu um grande ataque às suas doutrinas, denunciando os erros e suas consequências lógicas.[3]  Agostinho disse, diferentemente de Pelágio, que o pecado de Adão trouxe sérias consequências para ele e seus descendentes. A primeira delas estava ligada ao imago Dei, porque a advertência sobre a desobediência ao comando divino trazer “morte” incluía tanto uma morte espiritual quanto física. Espiritualmente, Adão morreu em termos relacionais com Deus; ele perdeu a habilidade de buscar o Criador, tornando-se alienado, morto no seu crime e pecado. Fisicamente, os dias de Adão estavam contados, sua longevidade estava em contagem regressiva e nem ele nem seus descendentes seriam fisicamente imortais. Como resultado disso, a imagem de Deus foi corrompida em sua totalidade. Qualquer descendente de Adão já nasceu espiritualmente “morto”. Essa queda se estendeu a todos os seres coletivamente, então “Ninguém é justo, nem um sequer. Ninguém é sábio, ninguém busca a Deus” (Romanos 3:10,11). Já que o livre arbítrio tinha sido perdido com a queda de Adão, a salvação ocorre não pela ação humana, mas pela ação divina. Deus é quem começa, continua e termina a salvação das pessoas. Agostinho chamou todos esses efeitos da queda de “Pecado Original”.

Para Armínio, a imagem de Deus não foi perdida, mas completamente corrompida. Isso está de acordo com o pensamento agostiniano, com as ideias de Calvino e com os documentos confessionais da RCN (Confissão Belga e o Catecismo de Heidelberg Catechism).[4] Armínio articulou duas dimensões da Imagem de Deus—uma chamada essencial e a outra acidental.[5]  A imagem essencial contém o livre-arbítrio natural, que, apesar de não ter sido perdido, foi corrompido no ser humano, então as decisões não são as mais sábias nem as mais corretas. A imagem acidental, entretanto, diz respeito ao livre arbítrio espiritual, algo que foi perdido com a queda de Adão.[6]

Armínio foi muito enfático sobre o que aconteceu com o livre arbítrio espiritual desde a queda de Adão. De acordo com ele: “sobre graça e livre arbítrio, isso é o que eu ensino, sobre a Bíblia e o consenso ortodoxo: o livre arbítrio é incapaz de iniciar ou aperfeiçoar qualquer bem verdadeiro e espiritual sem a graça.”[7] Ele também disse que “naquele estado [caído], o livre arbítrio do homem para o que é bom não está simplesmente machucado, aleijado, doente, distorcido e enfraquecido; também está aprisionado, destruído e perdido”.[8] Armínio concordava com a proposta agostiniana que o ser humano não regenerado está “morto” e é, portanto, espiritualmente incapaz.[9] A solução para isso, então, deve vir de fora do indivíduo. Deve vir de Deus.[10] Baseado nisso, Armínio se distanciou do pelagianismo.[11]  

Armínio também se distanciou da igreja da Holanda no seu entendimento de salvação. Armínio e seus contemporâneos entenderam graça como a maneira pela qual a vontade se torna livre. Entretanto, eles discordavam sobre a resposta humana. O Calvinismo que Armínio discordava ensinava que toda a experiência de salvação para o eleito, desde a graça preveniente até a santificadora, não envolvia resposta humana. Armínio concordava que era somente pela graça de Deus que a vontade humana (livre arbítrio) poderia se tornar livre, mas isso acontecia através da graça capacitadora que permitia que os humanos respondessem a Deus em fé.

As contribuições de Armínio foram muito importantes para o evangelicalismo europeu do Século XVIII. Embora muitas de suas ideias não fossem inteiramente novas, elas influenciaram importantes movimentos, como o Metodismo Wesleyano (Século XVIII) e o Movimento de Santidade (Século XIX). A Igreja do Nazareno é devedora de seu legado.

Vinicius Couto é um presbítero ordenado liderando o ministério da Primeira Igreja do Nazareno de Vinhedo, São Paulo. Ele também é professor no Seminário Teológico Nazareno no Brasil.

Holiness Today, Novembro/Dezembro de 2020

 

[1]. Para informação biográfica de Armíniom veja: Nathan Bangs, The Life of James Arminius, D.D., Formerly Professor of Divinity in the University of Leyden. New York: Harper and Brothers, 1843; e John Guthrie, The Life of James Arminius. Nashville: E. Stevenson & FA Owen, 1857. Veja também: Carl Bangs, Arminius: A Study in the Dutch Reformation. Eugene: Wipf and Stock Publishers, 1985. Para suas obras, veja James Arminius, The Works of James Arminius, 3 vols. Auburn and Buffalo: Derby, Miller and Orton, 1853; e James Arminius, The Missing Public Disputations of Jacobus Arminius: Introduction, Text, and Notes, Ed. Keigh Stanglin, Boston: Brill, 2010.

[2]. Para mais informações sobre as ideias de Pelágio, veja B. R. Rees, Pelagius: Life and Letters. Rochester: Boydell & Brewer Ltd, 1998.

[3]. As principais obras de Agostinho lidando com Pelágio são: Against Two Letters of the Pelagians; On the Grace of Christ, and on Original Sin; On Merit and the Forgiveness of Sins; e On the Proceedings of Pelagius.

[4]. Após o Sínodo de Dort (1618-19), os cânones de Dort foram adicionados como o tripé confessional da RCN, chamados de “formas de unidade”.

[5]. James Arminius, The Works of James Arminius, vol. 1 (Auburn and Buffalo: Derby, Miller and Orton, 1853), 123-125; James Arminius, The Missing Public Disputations of Jacobus Arminius: Introduction, Text, and Notes, Ed. Keigh Stanglin, (Boston: Brill, 2010), 219-232.

[6]. João Wesley pensava nos mesmos termos de Armínio no que diz respeito à imagem essencial e acidental. No entanto, acrescentou a ideia de imagem política (baseada em Isaac Waats), dando ao imago Dei um caráter tridimensional.

[7]. Arminius, The Works of James Arminius, vol. 1, 473.

[8]. Ibid.

[9]. Arminius, The Missing Public Disputations of Jacobus Arminius: Introduction, Text, and Notes, Ed. Keigh Stanglin, (Boston: Brill, 2010), 213-216.

[10]. Arminius, The Works of James Arminius, vol. 1, 231.

[11]. Ele até chamou explicitamente o Pelagianismo de "herético" (Arminius, The Works of James Arminius, vol. 1, p. 235. Para críticas mais explícitas às doutrinas de Pelágio por Arminius, veja p. 198, 201-2, 275, 290, 294-5, 299, 332-6, 348; see also Arminius, The Missing Public Disputations of Jacobus Arminius, 281-296, 333-346, 406; Arminius, The Works of James Arminius, vol. 3, 281, 342, 354, 484).

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