Estabelecido em Cristo

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Deus que Santifica em Cristo

O termo santificação não é uma palavra distinta no Novo Testamento grego. O significado de santificação, expresso por inúmeras palavras, está relacionado à santidade. O adjetivo “santo” se refere primariamente a Deus. A santidade de Deus, o Pai, é evidente em todo lugar no Novo Testamento como representada em Jesus Cristo e no Espírito Santo. Os santos são o povo de Deus, isto é, aqueles que pertencem a Ele, relacionados a Ele e separados por Ele e para Ele.

O verbo grego ἁγιάζω pode expressar uma ação, tal como “tornar santo”, “santificar”, “consagrar”, “purificar”, ou um estado que resulta de uma ação: “ser santificado”. Logicamente, o sujeito da ação santificadora é sempre Deus e não as pessoas. Consequentemente, objetos consagrados por Deus são santos, porque Ele é santo.

No Novo Testamento, Deus, o Pai, separou Jesus e O colocou no mundo (João 10:36). Jesus é explicitamente citado como o Santo de Deus (Marcos 1:24; João 6:69) que se torna a fonte de santificação assim como o Pai e o Espírito Santo (Romanos 15:16; 1 Pedro 1:2). Jesus é capaz de Se santificar (João 17:19) e santificar a Igreja (Efésios 5:26). Em 1 Coríntios, Paulo enfatiza que Cristo se tornou “a sabedoria de Deus em nosso favor, nos declarou justos diante de Deus, nos santificou e nos libertou do pecado” (1 Coríntios 1:30). Tanto Paulo quanto o autor aos Hebreus explicam a habilidade de Cristo de fazer o trabalho de santificação do Pai, devido ao ato de expiação de Cristo (Romanos 3:22-26; Hebreus 10:10). Em geral, entretanto, Paulo fala de ser santificado em Cristo (1 Coríntios 1:2) enquanto Hebreus desenvolve um entendimento completo da expiação de Cristo comparando o ato de Cristo com os sacrifícios do Antigo Testamento. 

Nos tempos do Antigo Testamento, o sangue de animais era oferecido pelas pessoas contaminadas (pelos sacerdotes para que eles pudessem entrar no lugar santo para cumprir seus deveres e representar as pessoas diante e Deus e pelos outros para que eles pudessem entrar num relacionamento de aliança com Deus). Mas sacrifícios de animais em si não poderiam aperfeiçoar, purificar nem santificar ninguém (Hebreus 10:2). Ao invés disso, os sacrifícios lembravam o povo de Deus que seus pecados ainda precisavam ser totalmente tratados e lidados (Hebreus 10:3). Somente o sangue de Cristo purifica as consciências dos crentes de suas obras pecaminosas (Hebreus 9:14) de uma vez por todas, eliminando a necessidade de mais sacrifícios.

Cristo, como ser humano sem defeito, Se ofereceu como sacrifício para Deus no lugar de todas as pessoas. Já que a vida de Jesus na terra e Sua morte na cruz demonstram uma perfeita obediência a Deus, Seu sacrifício foi a oferta perfeita—santa e agradável a Deus—com nenhuma necessidade de outros sacrifícios. Ao mesmo tempo, como o Sumo Sacerdote, Ele poderia representar o povo de Israel e toda a humanidade diante de Deus (Hebreus 9:25-28). Portanto, a oferta de Cristo retrata a iniciativa de Deus em Cristo, que afeta o nosso estado de santificação (Hebreus 13:12; 1 Coríntios 6:11). Nesse sentido, o conceito de santificação é relacionado com a reconciliação e demonstra a graça preveniente de Deus.

Santificação por Cristo no Espírito Santo

Ademais, os cristãos devem compartilhar da santidade de Deus exemplificada em Jesus Cristo e no Espírito Santo (Hebreus 12:10). O substantivo grego ἁγιότης aparece somente uma vez no Novo Testamento, aqui em Hebreus; ele significa “santidade” e descreve o caráter essencial de Deus. Deus prepara os cristãos para compartilharem de Sua santidade no cumprimento da promessa do Antigo Testamento: “Sede santos, porque eu sou santo” (Levítico 11:44-45).

Outro substantivo para “santidade” (ἁγιωσύνη) aparece três vezes no Novo Testamento e somente nos escritos de Paulo. Ele se refere a incomparável majestade de Deus, e Paulo usa essa palavra para descrever a atividade do Espírito (Romanos 1:4) e a condição divinamente criada de santidade que demanda uma finalização (2 Coríntios 7:1; 1 Tessalonissenses 3:13). O terceiro substantivo para “santidade” ou “santificação” (ἁγιασμός) significa os efeitos da consagração—santificação do coração e da vida (1 Coríntios 1:30; 1 Tessalonissenses 4:7; 2 Tessalonissenses 2:13; 1 Timóteo 2:15; 1 Pedro 1:2; Hebreus 12:14)—e uma vida de obediência a Deus em oposição ao pecado e a luxúria (Romanos 6:19, 22; 1 Tessalonissenses 3:13; 4:3). Embora essa terceira palavra grega para santidade (ἁγιασμός) também seja rara no Novo Testamento, os autores do Novo Testamento enfatizam a mudança real que ocorre naqueles que são santificados através da ação santificadora de Deus em Cristo e capacitados pelo Espírito.

Paulo, por exemplo, apelou aos cristãos que vivessem uma nova vida em Cristo (2 Coríntios 5:17-21), para que se apresentassem como sacrifício vivo a Deus, santo e agradável, e serem transformados pela renovação de suas mentes (Romanos 12:1-2). De fato, ele os lembrou que em Cristo eles são o templo santo de Deus (1 Coríntios 3:16; 6:19; Efésios 2:20). Como corpo, corporativamente e individualmente, eles são o local de habitação de Deus e chamados para viverem como povo santo de maneira que glorifique a Deus. Pedro descreve aqueles que são santificados em Cristo como sacerdócio santo (1 Pedro 2:5) e os exorta a serem santos (1 Pedro 1:16). Ele ofereceu muitos exemplos do que ele queria dizer com isso: amar uns aos outros de todo o coração (1 Pedro 1:22), se abster dos desejos da carne (1 Pedro 2:11), e adorar a Cristo como Senhor (1 Pedro 3:15).

Paulo escreveu que o sinal da nova comunidade santificada por Cristo é a sua participação no batismo de Cristo (Romanos 6:3-14), que significa morrer para o pecado e se levantar com Ele numa nova vida de obediência a Deus. Paulo deixou implícito que morte e pecado não dominam pessoas santificadas, porque elas estão transferidas na esfera de Cristo e caem sob Sua graça. Deus, em Sua graça, faz o que não conseguimos fazer por nós mesmos. Somos levados ao reino de Seu Filho e, assim, recebemos o poder para obedecer. Com nossas mentes fixadas em Cristo e nossas vidas cheias do Espírito de Cristo (Romanos 8:10), os seguidores de Cristo experimentam uma transformação contínua. William Greathouse resume o conceito da graça de Deus em ação de forma bem resumida: “Deus nos ama o suficiente para nos aceitar do jeito que somos . . . mas ele nos ama muito para nos deixar como estamos. Ele nos liberta para desfrutarmos de uma nova qualidade de vida” —uma vida de santidade.[1]

A vida cristã é marcada pela obediência a Deus, estabelecida em Cristo e com o poder e a direção do Espírito Santo. Os autores dos evangelhos, especialmente João testificam do fato que Jesus prometeu nunca deixar seus seguidores. O Espírito de Cristo é derramado depois da ascenção de Jesus para capacitar os cristãos a viverem suas vidas pessoalmente e coletivamente como verdadeiros discípulos de Cristo—para amar uns aos outros e viverem a santidade de Cristo no mundo. Do Dia de Pentecostes para frente, o Espírito tem sido derramado como foi prometido no Antigo Testamento (Atos 2:17; Joel 2:28), capacitando os discípulos a espalharem a Palavra de Deus e para estabelecerem igrejas.

Inicialmente, os santos eram em sua maioria cristãos de contextos judaicos (talvez até em Atos 2, 9:13, 32, 41), mas, eventualmente, os santos de Deus se espalharam pelo mundo gentio. “Os santos” é a designação mais comum para todos aqueles que estão unidos em Cristo e com Cristo e dirigidos pelo Seu Espírito (Romanos 1:7; 2 Coríntios 1:1; Efésios 1:1; Filipenses 1:1; Colossenses 1:2; Hebreus 3:1). Espalhar as boas novas tem sempre sido a missão da Igreja santificada.

No Espírito, Deus une Seu povo a Ele, literalmente adotando-os para que, juntos, eles possam prosseguir em amor, paz e esperança mesmo através do sofrimento (Romanos 5:1-5; 8:14-30). Fé, esperança e amor permanecem como elementos essenciais da comunidade santa onde Deus habita no Espírito de Cristo (1 Coríntios 13:13).

Mesmo em momentos de fraqueza e enquanto aguardam a redenção final, o povo santificado deve depender do poder do Espírito (Romanos 8:26-27). Em tais momentos, se não sabemos como orar, o Espírito intercede em nosso favor, porque Ele conhece os nossos corações e o desejo de Deus para nós: “Se formos infiéis, ele permanece fiel” (2 Timóteo 2:13). Além disso, “aquele que começou a boa obra em vocês irá completá-la até o dia em que Cristo Jesus voltar” (Filipenses 1:6). De fato, o próprio Deus nos santifica totalmente antes da vinda de nosso Senhor Jesus e deseja que todo o nosso espírito, alma e corpo sejam preservados puros até o dia que Ele voltar (1 Tessalonissenses 5:23; 2 Coríntios 7:1). Isso não é simplesmente uma esperança, mas uma certeza bendita que Deus faz com que todas as coisas cooperem conjuntamente para o bem daqueles que O amam, conformando-os à imagem de Seu Filho e lhes dando Sua glória (Romanos 8:26-30).

Svetlana Khobnya é palestrante em estudos bíblicos na Faculdade Teológica Nazarena em Manchester, Reino Unido.

Holiness Today, Janeiro/Fevereiro de 2021

 

[1] William M. Greathouse with George Lyons, Romans 1-8: A Commentary in the Wesleyan Tradition (Kansas City: Beacon Hill Press, 2008), 154.

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